21/12/2020

A Voz Suprema do Blues

Ma Rainey's Black Bottom
Viola Davis é uma atriz do mesmo quilate de Meryl Streep. Infelizmente ainda não é tão reconhecida ou tão bem paga quanto (a bem da verdade isso acontece por ela ser negra, vamos deixar isso claro). Quem a viu em Dúvida (2008) roubando a cena de Meryl numa sequência de poucos minutos, sabe muito bem o que ela é capaz. Tanto que foi merecidamente indicada ao Oscar pelo feito. Depois disso, ela sempre se mostrou uma atriz visceral no cinema e na TV também (How To Get Away With Murder está aí pra provar). Dito isso, seu amigo Denzel Washington não deve ter tido dúvidas em escalar sua companheira de Um Limite entre Nós (2016) para o papel da mãe do blues, Ma Rainey. Ora, Viola já tinha um Oscar por esse filme ao lado de Denzel, quem sabe ela poderia ganhar outro? 

Pois é. Poderia.

Acontece que A VOZ SUPREMA DO BLUES não é um filme para Viola, nem tampouco é sobre a vida de Ma Rainey. O filme, adaptado de uma peça de teatro, está mais focado nos rapazes de sua banda (interpretados por Chadwick Boseman, Colman Domingo, Glynn Turman e Michael Potts) do que na história da mulher que ensinou Bessie Smith a cantar. Nos poucos momentos que Viola tem em cena ela brilha como sempre, claro, mas é óbvio que poderia ter sido mais, quando aparece é a alma do filme. O fato dela não aparecer mais, obviamente que não foi culpa dela, o roteiro e a direção é que deixam a desejar.

Como eu disse, o filme é uma adaptação de uma peça de teatro que o diretor, George C. Wolfe não fez a menor questão de transformar num filme de fato. Parece teatro filmado, o que é lamentável. A preguiça foi tanta que tudo parece resto de alguma coisa. Cenários, figurinos, parecem sobras de outras produções. Talvez a  grana fosse curta pra pagar o cachê de Viola e Chadwick, não sei, mas é nítido que o diretor deve ter pensado: "não preciso fazer nada já que o texto é muito bom e eu tenho bons atores para dizê-lo", contudo, mesmo em cima dos diálogos de August Wilson, o autor da peça, e das presenças de Viola e Chadwick falta muito para o filme, ou melhor, a peça filmada, chegar lá.

O problema aqui, me parece é que eles resolveram adaptar tudo fielmente e é justamente aí que eles erraram já que o bom uso da câmera, uma boa montagem e o uso do tempo que não deixaria que a gente visse uma história sem cortes fazem a diferença do teatro para o cinema.

Ficaram pontas soltas que o roteiro não desenvolveu nem criou ganchos interessantes. Pra um filme desse porte a presença de Viola nem era necessária. Na verdade, nem a presença de Ma Rainey era necessária. Como disse meu amigo Thiago, o filme já começa errado pelo título. Chadwick é outro que até compõe bem seu personagem, mas a gente sempre vai lembrar dele como o Pantera Negra, não tem jeito.

O que é triste nisso tudo e que a campanha de marketing está pesada pra darem o Oscar pra ele, se isso acontecer será mesmo uma lástima, já que existem outros atores que mereciam bem mais. Dar um prêmio de consolação, acredito que não era algo que Boseman esperava em vida, muito menos que sua memória mereça. Ele merecia mais e merecia um filme melhor também, assim como Viola e todos os outros.

05/12/2020

Era uma vez um sonho

E era uma vez um Oscar.

Ron Howard nunca foi um bom diretor, sempre foi mediano e até no filme que lhe rendeu I-N-J-U-S-T-A-M-E-N-T-E o Oscar (Uma Mente Brilhante) ele não mostra habilidade em conduzir a história. O moço que começou a carreira como ator mirim (nunca gostei desse termo) em algum momento viu que o carisma juvenil não ia durar para sempre e migrou para trás das câmeras. Talvez tivesse continuado onde estava.

Bem, ele colecionou sucessos em filmes mega populares dos anos 80 como Splash, Cocoon, Willow e Parenthood e a partir daí achou que poderia ser um diretor sério e fazer projetos mais audaciosos que mostrassem que ele era um diretor de fato. A mesma coisa que Spielberg fizera. Foi justamente a partir daí que ele mostrou para o mundo como ele é um diretor coxinha, nada inventivo que apela pras soluções mais fáceis a fim de conquistar o público.  Pra indústria do cinema americano, um ator que só faz filmes de ação, ou comédia, não possui o mesmo prestígio, daquele que faz dramas intensos. O mesmo ocorre com o cineasta que para crescer na carreira e oferecerem projetos maiores, precisa fazer filmes com temáticas mais contundentes. Nesse caso Spielberg conseguiu. Ron Howard mesmo em projetos mais densos nunca soube como aquelas histórias poderiam render mais do que ele teimava em fazer. E é justamente isso que vemos em Era uma vez um sonho.

Era uma vez um sonho é uma adaptação bem meia boca do livro de J.D Vance, Era uma vez um sonho: A história de uma família da classe operária e da crise da sociedade americana. O livro retrata a decadência cultural e econômica de uma sociedade e tem feito tanto sucesso que desde 2016 é um best seller. Ele também é indicado para quem deseja compreender como Trump ganhou as eleições no EUA. Honesto, J.D. Vance mostra como a vida é difícil para tantas pessoas, aquelas mesmas pessoas que os americanos não querem reconhecer sua existência. Ele utilizou a sua história de vida para compor um mosaico cruel e verdadeiro dessa sociedade marginal.

Mas não é bem isso que vemos no filme. O que fica é uma família disfuncional. Uma avó que precisa criar o neto já que a filha é instável emocionalmente e a irmã está tentando fugir daquela família.

Ron Howard preferiu tirar todo esse aspecto e centrar apenas na superficialidade dos dramas daquela família. Com um livro como esse em mãos, um exímio diretor teria feito um filme esplêndido, mas o roteiro de Vanessa Taylor, roteirista que foi indicada ao Oscar por A Forma da Água e ao Emmy como produtora de Game of Thrones não saiu do topo do iceberg.

Entretanto, é preciso dar crédito aqui aos atores que de fato tiraram leite de pedra. Glenn Close, irreconhecível como a matriarca da família, é sempre maravilhosa e isso é uma redundância, assim como o trabalho de Amy Adams. Completando o elenco Haley Bennet como a irmã do protagonista é o equilíbrio que aquela família precisa e por fim os jovens Gabriel Basso e Owen Asztalos que compõem o protagonista na adolescência e fase adulta de maneira carismática, sensível e sem estrelismos. O triste é que todos esses atores soberbos poderiam fazer bonito no Oscar.

Poderiam, porque como eu disse no começo desse texto, era uma vez um Oscar. A crítica não perdoou e as chances estão no limbo para todos eles.

Curiosidade: de alguma maneira, o filme precisava se pagar, talvez previram a bomba que estavam se metendo, então muitas marcas transbordam ao longo do filme: Coca-Cola, Sprite, Apple, Dell, Acer, Sony, Mentos, Nintendo, Marlboro, Budweiser, são as mais conhecidas, mas até calculadora e posto de gasolina entrou no orçamento.

04/12/2020

Coringa

A sociedade está doente, carente de informação, busca o tempo todo um herói, alguém que fale por ela, que, sobretudo, lute por ela. Tudo isso está explícito em Coringa, filme de Todd Phillips que rendeu aplausos unânimes da crítica e do público, principalmente pela atuação esmerada de Joaquin Phoenix.

O que vemos aqui como um trabalho de total entrega de Phoenix, num roteiro e direção inspiradores, colocou o filme num patamar até então desconhecido para películas do gênero sempre vistas como algo menor. Ok, sejamos justos. Anos antes, Heath Ledger já havia personificado o personagem em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) com imensa entrega e vencido um Oscar (póstumo) de melhor ator coadjuvante, o que para muitos foi a interpretação definitiva do bandido com cara de palhaço.  O filme, também muito prestigiado, foi ignorado pela Academia que não o indicou para o prêmio de melhor filme, nem melhor direção. Mas a semente foi plantada e Coringa vai além ao dar voz a um dos maiores vilões dos quadrinhos (talvez o maior) e Joaquin consegue sair da sombra de seu colega.

Coringa já começa a mostrar um homem doente, frágil, que depende de remédios para se manter de pé. Que almeja fazer stand up comedy e tem um emprego horrível como palhaço (ironia?) exibindo cartazes de propaganda. Para acentuar essa fragilidade, ele é agredido por uns garotos.

É notório que toda a raiva do personagem está ali, presente, querendo sair. Ele tenta se conter, mas é impossível. Quando sai em defesa da moça no metrô ele sai em defesa de si mesmo. Matar os rapazes de colarinho branco é a metáfora perfeita para o que a sociedade espera de um herói agora. Eles não querem um homem que voe e tenha uma super força, mas sim alguém como eles.

E a partir daí, Coringa, ou melhor, Arthur Fleck, percebe que a moça que ele supunha namorar estava apenas em seu imaginário. A realidade bateu em sua porta e agora ele tem que lidar com ela, assim como todos nos todos os dias ao sair de casa e enfrentar empregos que não queríamos ter, salários que não merecemos receber, conviver com pessoas que não gostamos.

Essa sociedade mostrada em Coringa não é uma utopia, antes fosse. É a mesma sociedade que eu e você vivemos e para qual estamos mergulhados. Existe um Coringa dentro de muitas pessoas, mas também existe um Batman, só que neste caso, é outra história.

Curiosidade: 16 das 20 marcas de Coringa eram fabricantes de automóveis, contudo a marca mais visível foi a Panasonic que apareceu por quase três minutos do tempo de tela e grande parte são close-ups de suas TVs com o logotipo visível.

06/08/2020

Dois Papas


Talvez Fernando Meirelles seja sempre lembrado por seu exímio trabalho a frente de Cidade de Deus (2002), porém ele realizou depois grandes filmes como O Jardineiro Fiel (2205), Ensaio Sobre a Cegueira (2008) e este, Dois Papas (2019), com Anthony Hopkins e Jonathan Price. Neste último ele humaniza a figura de dois homens que para muitos são divindades. Se de um lado Bento 16 entrou pra história como um papa lá não muito bem quisto e amado, até a figura do próprio capeta que abdicou do posto, temos do outro lado um doce estimado por todos, Papa Francisco.

Bento 16 tinha suas convicções retrógradas, mas é preciso entender que ele é um homem com dificuldades em aceitar que os tempos eram outros e que a igreja precisava avançar. Francisco é um homem que compreende essas mudanças e quer colocá-las em prática. O filme mostra isso e vai além ao mostrar um Francisco, ou melhor, José Mario Bergoglio, como um homem comum que um dia resolve deixar a mulher que ama para seguir um chamado eclesiástico. Ao ser empossado como Papa, sua simpatia ganhou o mundo, contudo, as acusações de que teria sido omisso durante a ditadura argentina pipocaram e aqui o filme tenta mostrar que ele para salvar a vida de alguns amigos que lutavam contra o regime, precisou ser acima de tudo, político. 

O filme mostra encontros fictícios com os dois papas e é divertido vê-los apreciando futebol, tirando sarro um do outro, porém o que mais vai chamar a atenção é o debate que ambos travam ao longa da história. A direção de Meirelles passeia por esses encontros, o filme tem ritmo e não se perde. Claro que ter dois gigantes como Anthony Hopkins e Jonathan Price no elenco é sempre um ganho, isso somado ao excelente roteiro que amarra muito bem toda a ação. 

17/06/2020

Dor e Glória

O cinema de Pedro Almodóvar é colorido, vibrante, suas histórias são genuínas, únicas e por isso mesmo nem parecem estar acontecendo bem embaixo de nosso nariz, mas estão. Acontece que o espanhol aumenta sempre a intensidade da cor de cada história e por isso muitas vezes há quem diga que elas só poderiam sair de sua cabeça.

Dito isso temos Dor e Glória que é uma homenagem do diretor ao cinema, pode ser que o personagem seja baseado nele, pode ser que não, mas aqui temos mais um filme de Almodóvar com todas as suas características que o tornaram famoso.

Antonio Banderas (merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator) personifica o cineasta Salvador Mallo que vive cheio de dores, sua carreira está parada justamente por causa disso, ele reencontra um antigo ator com quem trabalhara muitos anos atrás, ele está imerso em seu passado e precisa se reconciliar com ele. Ele está entre a dor real do presente e a glória que viveu e esta inerte perante tudo isso.

Nesse processo de reconciliação, ele se volta para a infância, a vida ao lado dos pais, principalmente ao lado da mãe (magistralmente interpretada por Penélope Cruz), uma vida simples, repleta de pequenas descobertas. Descobertas essas que vão permeando o filme. 

E assim como a vida vai passando a morte parece ser algo com quem Salvador está flertando agora. Não é apenas o ator do passado que retorna mas também seu antigo amor. Ele reencontra também um elo do passado que ficou há muito tempo perdido em algum lugar de suas memórias. E é bem isso mesmo, um filme de reconciliações, Salvador precisa resolver tido que ficou para trás para prosseguir.

E ao contrário de muitos de seus outros filmes, aqui tudo é comedido, percebemos a cor do diretor em uma cenografia ou outra, mas ninguém está gritando, ninguém parece desesperado, mas não seria Almodóvar se ele não nos brindasse com uma linda cena final. Talvez você não precise preparar os lenços, mas talvez irá sentir uma pequena gota d'água brotando no cantinho do olho.

01/06/2020

História de um Casamento

Nicole (Scarlett Johansson) é uma atriz de teatro casada com Charlie (Adam Driver), o diretor da cia a qual fazem parte em Nova York. Eles trabalham juntos há um bom empo, mas o casamento está em crise e eles procuram ajuda profissional. Nicole, volta pra Los Angeles com o filho e lá decide se separar de Charlie que não aceita a ideia da mulher deixá-lo e ainda mais ir morar com o filho deles do outro lado do país. Ela contrata uma advogada (Laura Dern) e a guerra começa.

História de um Casamento é um filme lançado pela Netflix que dialoga com a ideia de que um casamento é um acordo entre duas partes e se uma das partes não está feliz esse acordo pode ser quebrado, o problema é quando existem outras pessoas envolvidas - e me parece que sempre há alguém. No caso do filme nós temos o filho do casal de protagonistas (um menino muito chatinho por sinal que nem liga pro pai que faz de tudo pra tentar estar perto dele, mas nada dá certo) e pra piorar uma advogada linha dura que engrossa o angu. 

Calma, eu não estou aqui apenas pra defender o personagem de Adam Driver que é quem mais se fode nessa história, apesar dele ter pisado na bola e ter traído Nicole, filme tem o mérito de mostrar que ambos tentaram, Nicole não tinha muita certeza se era bem isso que ela queria, em determinado momento parece que ela só queria ir morar com o filho em Los Angeles e tentar recomeçar por lá. Ela não estava feliz em Nova York, lá era apenas a esposa do diretor badalado. A própria traição de Charlie nem é o ponto principal dessa guerra toda como acontece em tantos casos de separação. O ponto principal aqui é que Nicole quer seguir outro caminho e Charlie não faz mais parte dele.

História de um Casamento foi indicado a seis Oscars entre eles, melhor filme, roteiro original, ator, atriz e atriz coadjuvante. Venceu este último, justamente o que menos merecia. Laura Dern é uma boa atriz que já provou isso várias vezes, mas me pareceu que esse prêmio foi mais pelo conjunto da obra do que pelo papel neste filme que não tem nada demais e lembra muito a Renata Klein de Big Little Lies.

O que faz esse filme ser especial é que ele não poupa seus protagonistas, é um filme em que a direção permite que eles brilhem em cada frase, cada momento em que aparecem. Um filme feito para grandes atores terem o que dizer. E para quem assiste, pensar nas relações que vive. Um casamento não é uma prisão, é apenas um acordo entre duas pessoas feito no momento em que elas acreditam estarem indo para o mesmo caminho, mas se no decorrer, uma delas, ou as duas, decidem que não querem seguir mais o mesmo caminho, tudo bem. Afinal, o importante é tentar ser feliz.

28/05/2020

Parasita

Ok, podem me crucificar porque eu demorei muito tempo pra falar deste filme, na verdade não apenas deste filme, o blog ficou em hiato dois anos, portanto eu não falei de outros filmes importantes deste ano nem do ano passado (cadê os filmes do Oscar, veado?), mas sempre é tempo pra se redimir, né? Então vamo s'imbora!

Parasita (2019) não é apenas o melhor filme do ano passado, mas pode ser considerado o melhor da década e entra perfeitamente no roll das grandes obras primas do cinema. E não estou exagerando! Merecidamente levou o Oscar de melhor filme (às vezes eles acertam) num ano com outros filmes bons também, além de conseguiu romper a barreira de se tornar o primeiro filme não falado em inglês a levar este prêmio. Enfim, a academia resolver aderir e aceitar a globalização. E eu acho que falei filme demais nesse parágrafo.

Claro que o Oscar sempre foi uma premiação feita por americanos para premiar filmes americanos. Era uma forma deles dizerem, "sim, nós é que fazemos os melhores filmes do mundo" e eles venderam essa ideia durante décadas, mas com o advento da globalização e os filmes feitos fora de Hollywood saindo da pequena esfera de festivais e minúsculas salas de exibição ganhando mais espaço, era natural que a premiação mais badalada do mundo se rendesse. Demorou, é claro. Vimos grandes filmes ao longo de muitos anos ficarem de fora, mas Parasita conseguiu o feito de agradar aos ianques, um público ufanista demais.

Em Parasita, vemos a história de uma família que está passando por sérias dificuldades, eles vivem num porão e ganham alguns trocados dobrando caixas de pizza. Tudo isso até o amigo do filho aparecer com uma proposta de trabalho que vai mudar a vida de todos: dar aulas particulares de inglês para uma menina rica.

A partir daí somos apresentados aos outros personagens e como estes vão se conectando um a um. As críticas sociais presentes são registradas, ora de maneira explícita, praticamente um tapa na cara da sociedade careta e covarde, ora nem tanto, precisa-se de uma releitura para serem entendidas, mas estão lá.

O mais legal aqui é se deixar ser guiado pela história e pelos eventos que vão surgindo. As surpresas do roteiro seguem até o último minuto. Em alguns momentos as situações são engraçadas, mas vejam bem, tudo tem um lado trágico. Aqueles personagens estão tentando sobreviver num mundo cruel.

Muito cruel.

18/05/2020

Shazam!


A DC Comics, ao contrário de sua rival, Marvel, sempre apresentou personagens politicamente corretos, quer dizer, a exceção sempre foi o Batman, mas ela tinha o Super-Homem e a Mulher-Maravilha como símbolos da retidão que os EUA adoram pregar. Talvez por não se aproximarem tanto do público ela perdeu espaço pra Marvel ao longo dos anos já que esta sempre mostrava super heróis com os mesmos problemas que eu, que você.

Talvez isso justifique o sucesso dos filmes da Marvel no cinema. A DC, com exceção do Batman, não seu deu nada bem com o filme do Lanterna Verde e Homem de Aço é um tanto chato, apesar da beleza magnética de Henry Cavill ser perfeita pro personagem. Tudo isso até a chegada do longa da Mulher-Maravilha que conseguiu romper a chatice que a empresa sempre fez questão de manter. Na TV, as séries do The Flash, Supergirl e Arrow também garantiram um bom público como também a do Superboy exibida bem antes (apesar que durou tempo demais e se perdeu ao longo das dez temporadas).

Toda essa introdução é pra falar de SHAZAM! (2019), super herói que já teve uma série televisiva nos anos 70 e que ganhou uma divertida releitura ano passado. O filme não apenas apresentou um personagem que muito lembra o Super-Homem, mas ele tem humor, coisa que seu colega nem sonha ter. Outra coisa bacana é que o filme tem uma história bem simples, sem ziguezague, servindo apenas pra mostrar a origem do personagem.

Em Shazam!, vemos um garoto, Billy (Asher Angel), se perder da mãe e crescer fugindo de lares adotivos até conhecer um casal que resolve ajudá-lo, eles já tem outros filhos adotivos e Billy é muito bem recebido em sua nova casa, mesmo ele não gostando. Tudo até conhecer um antigo feiticeiro que lhe dá grandes poderes e nessa hora ele se transforma num adulto e é aqui entra em cena Zachary Levi (super gostoso, por sinal) pra dar vida ao nosso herói.

O resto é como um filme de super herói como todos os outros e porque ele fez sucesso chegando a ser considerado pela crítica o melhor filme da DC desde O Cavaleiro das Trevas? Porque o roteiro, elenco e efeitos especiais são muito bons e como eu disse anteriormente, ele não enrola o público como Homem de Aço fez e diz logo a que veio. 

E as marcas explodiram na tela: os feitos de Shazam são gravados por uma Panasonic, ele come Cheetos, bebe Red Bull e joga num XBox One. Como um bom filme comercial podemos ver muitas outras, claro e obviamente, como é de praxe em filmes assim, uma continuação já está sendo planejada, aguardemos que seja tão boa ou melhor que o primeiro filme.

Uma curiosidade: Shazam era conhecido anteriormente como Capitão Marvel e, isso mesmo, temos um Capitão Marvel na Marvel! Nos anos 70, a DC se viu obrigada a publicar a revista do personagem como nome de Shazam até que renomeou oficialmente o Capitão Marvel como Shazam quando relançou em 2011.

15/05/2020

Estranhos em Casa

Lançado em abril deste ano pela Netflix, Estranhos em Casa (Furie, 2019), é um filme francês que bebe da mesma fonte de Corra (Get Out, 2017). Assim como no filme americano, o protagonista é negro, bem sucedido em sua carreira, pacato e sofre preconceito. Ambos também se relacionam com mulheres brancas. E sim, tem bem mais coisa parecida, mas vamos a história.

Um casal e seu filho vai passar férias a bordo de uma motorhome. Eles deixam tomando conta da casa durante esse período a babá do filho e seu marido, porém quando retornam das férias, o casal não quer sair. Pra piorar tudo, existe uma leia na França que protege os novos morados já que eles estão pagando as contas de luz, água e gás. Lógico que eles não aceitam isso e a coisa vai parar na justiça e o que parecia ser bem fácil de resolver vai se complicando. Ainda mais depois que eles se veem obrigados a passarem um tempo num camping

Estranhos em Casa começa como um drama familiar e vai se revelando um filme de terror destes repletos de carnificina. A violência não é gratuita. Existe dentro de Paul Diallo (Adama Niane, numa interpretação arrasadora) uma violência que ele não imaginava que poderia ter. Ele é apenas um professor de história que está passando dificuldades em seu casamento, mas que não quer se meter em briga nenhuma. Quando assiste dois alunos brigando na escola ele não faz nada. O tempo todo ele é posto à prova por agir de maneira pacífica. Algo que para Mickey (Paul Hamy) é covardia. Para ele a inércia de Paul o está deixando manso, domesticado e ele é um ser selvagem que precisa pôr pra fora isso.

Nesse caminho não fica claro porque o casal de inquilinos que ocupam a casa e do nada resolvem não querer sair mais. A moça estava grávida e me pareceu que como eles não tinham para onde ir ter o bebê que ficariam por ali mesmo, mas tanto Paul quanto sua esposa Chloé (Stéphane Caillard)são pessoas bacanas, contudo esse detalhe não importa para a historia e sim o terror psicológico que permeia grande parte do filme e que nos conduz a jornada de um homem comum que do nada pode perder seu chão. A casa representa o que ele tem de seguro no mundo, a esposa que um dia o traiu e cujo assunto ainda não foi bem resolvido na cabeça dele, o filho que ele mal se relaciona, os amigos que parecem ser mais amigos da esposa do que dele mesmo. 

Estranhos em Casa está disponível na Netflix, é violento mas não achei tão violento como dizem se a gente levar em consideração outros filmes do gênero. Ele prende a atenção e mostra que o verdadeiro terror está dentro de nós mesmos, um grande clichê, claro, mas a pura verdade.

02/03/2018

A Grande Jogada

Ok, vamos lá. É um grande filme? Não, é um filme mediano que vale a pena assistir no conforto de casa na Netflix quando for lançado. Mesmo assim cravou uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado porque seu roteirista é hype. Acompanhamos aqui a trajetória de Molly Brown que de estrela do esqui freestyle se transforma na princesa do poker, ganhando milhões de dólares com um negócio escuso investigado pelo FBI.

A Grande Jogada é o primeiro filme dirigido por Aaron Sorkin, o mesmo escritor de Questão de Honra, A Rede Social, O Homem que Mudou o Jogo e Steve Jobs. Como roteirista ele continua profícuo, como realizador fez bem o dever de casa. O longa é  cheio de diálogos interessantes e narrado o tempo todo na primeira pessoa, porém o que faz andar mesmo é a edição, de resto fica tudo nas mãos de Jessica Chastain que empresta sua beleza, charme e talento para viver uma mulher ambígua. Afinal, o que leva alguém que tinha tudo pra fazer uma carreira brilhante como esquiadora ou advogada entrar num negócio fraudulento desses?

O grande problema é que se você vai ver o filme esperando por respostas ele não responde nada, assim como Molly Brown que se recusa a responder as perguntas que poderiam salvá-la da cadeia. Contudo se busca apenas entretenimento ele pode funcionar, claro que em certos momentos precisa-se tomar cuidado já que o ritmo é rápido em determinadas cenas, mas mesmo que você perca o fio da meada não precisa se preocupar porque as regras do poker não impedem que se entenda que tudo ali é feito na base do blefe.

26/02/2018

Roman J. Israel, Esq.

Roman é um excelente advogado, seu grande defeito é ser honesto num meio que não prioriza tais valores. Ele está mais preocupado em defender seus clientes do jogo sujo que existe nos bastidores da lei. Tudo parecia ir bem pra ele até que seu sócio morre o deixando numa situação complicada ao ponto de  se ver obrigado a trabalhar com o quê e com quem não gostaria .

Roman J. Israel, Esq. é um filme estrelado e produzido por Denzel Washington que lhe deu mais uma indicação ao Oscar de melhor ator.  O grande problema é que ele aparece em praticamente todas as cenas e esse narcisismo poderia ter sido evitado, acredito que talvez se ele tivesse apenas produzido o filme e colocado outro ator, quem sabe o filme pudesse ir mais longe. Não que o filme seja ruim, eu diria que é mediano, mas acontece que ao invés de priorizar o roteiro que tem uma premissa bem interessante, esse egocentrismo de Denzel faz o filme se perder em vários momentos e deixar uma pergunta incômoda: afinal, Roman luta pelo quê mesmo? 

A luta incansável de Roman pelos oprimidos, que deveria ser o tema central do filme, deixa de existir, a dor das pessoas que ele tanto quer defender nem é enfatizada, é deixada de lado porque o que importa no filme é exibir o já conhecido talento de Denzel Wanshington. Pelo visto deu certo, os membros da Academia compraram a ideia, contudo o ator chegou num patamar que não precisa de nada disso. Em Trama Fantasma, por exemplo, Daniel Day-Lewis brilha porque sabe deixar os outros brilharem ao seu redor, infelizmente não podemos dizer o mesmo de Denzel porque sua vaidade atrapalha o andamento da história. Em certo ponto é legal ver a transformação do personagem, ela é bem feita, ele está agora sentando na mesa grande e participando de um jogo que nunca quis fazer parte e um diretor mais habilidoso poderia ter extraído cenas mais interessantes desse momento. A cena em que ele vai à praia talvez seja uma das melhores do filme. Outro desperdício é Colin Farrel num personagem que não tem sentido algum.

E para não dizer que não falo mais de marcas por aqui existe um caso interessante de Product Placement em que a Bic aparece. E outra coisa bacana é a trilha sonora com clássicos da black music americana, um ponto a favor de um filme que quase cumpre seu papel. Quase. Só ficou um pouco longe disso.

23/02/2018

The Square

"O quadrado é uma zona franca onde impera confiança e cuidado. Em seu limite, todos têm os mesmos direitos e deveres."
Assim como eu disse na resenha de The Post, esqueçam o subtítulo em português, The Square (o quadrado) é muito mais que a arte da discórdia. O filme sueco indicado ao Oscar deste ano é um soco no estômago, assim como seus concorrentes ele não poupa o dedo na ferida e vai até as ultimas consequências. Ao retratar vários temas difíceis, talvez o ponto principal seja essa inércia em que estamos vivendo atualmente em que olhar para os mais fragilizados que estão ao nosso redor não nos causa mais nenhum tipo de compaixão. A não ser que somos levados a isto.

Christian é o curador de um museu de arte moderna e um dia tem seus pertences roubados, ao invés de chamar a polícia ele mesmo rastreia o celular com a ajuda de um funcionário do museu e os dois decidem colocar em cada apartamento do prédio em que o celular está escondido, uma carta ameaçando o tal ladrão. O tal gesto dá certo e devolvem seus pertences, mas a partir daí vários contratempos surgem na vida de Christian.

É impressionante como a narrativa é forte, mas a direção não é pesada ao contrário de Três Anúncios para um Crime. Por sinal, os filmes desta categoria dão um banho, uma verdadeira aula de cinema que os americanos deveriam começar a aprender. O diretor Rubens Östlund sabe como conduzir as cenas de tal forma que os momentos mais densos são cobertos de poesia. A versão de "Ave Maria" de Gounod feita por Yo-Yo Ma & Bobby McFerrin pontua toda a história ajudando a criar esse clima mais leve, talvez a ideia seja uma grande ironia do diretor, entretanto, funciona muito bem.

Claro que nada disso seria perfeito se não houvesse um elenco a altura e é aqui entra o nome de Claes Bang, esse ator dinamarquês carrega todo o filme sem cair na pieguice nem na caricatura, sua composição é impressionante e se de fato o Oscar fosse justo ele teria no mínimo recebido uma indicação. Sua performance é um verdadeiro show que nos faz perguntar: quem é Gary Oldman?

21/02/2018

Doentes de Amor

Os membros da Academia este ano cometeram vários erros, um deles foi menosprezar filmes interessantíssimos como este. Doentes de Amor foi indicado apenas para melhor roteiro original (por sinal merece e muito esse Oscar) e nada mais. Uma pena. O filme é superior a vários que concorrem em muitas estatuetas.

Fugindo do clichê de comédia romântica, o filme mostra um paquistanês (Kumail Nanjiani, que por sinal escreveu o roteiro baseado em sua vida) que tenta a sorte como comediante de stand up. Em um destes shows conhece uma jovem e iniciam um relacionamento. O problema é que sua família é muito tradicional e espera que ele se forme como advogado e cumpra todos os deveres de um muçulmano, como orar várias vezes ao dia e casar com uma moça que eles arranjarem. Só que ele não quer nada disso e vive fugindo de tudo isso, sem que obviamente eles saibam. 

Partindo de uma premissa comum o que faz Doentes de Amor ter um roteiro original é que ela é pautada mais nas tragédias que cercam seu protagonista do que na comédia em si. Ele acaba partindo o coração da namorada em esconder certas coisas de sua vida. Quando a jovem vai parar no hospital,  ele cuida dela durante o tempo em que está em coma e se aproxima dos pais da moça. É justamente o pai dela que tenta dizer pra ele que quando a gente sente que vai perder a pessoa que ama é que descobre que ela é o amor de sua vida. Ok, na verdade ele não disse dessa maneira, mas quis dizer isso. O que quero dizer é que o diálogo em si é divertido como são todos os diálogos do filme.

Num ano marcado pela forma nojentinha como a mídia fez colocar filmes medíocres entre os melhores do ano é lamentável que a festa do Oscar não tenha mais o brilho de outrora, não que isso não ocorresse antes, mas agora está tudo tão descarado que salta aos olhos de tal forma que até quem ainda acreditava na credibilidade do Oscar já não acredita tanto. O que levou os membros da Academia a cometerem tantos erros esse ano eu não sei, vai ver cometiam antes e a gente que era bobo.

20/02/2018

Visages, Villages

Em sua extensa carreira como diretora, Agnès Varda foi do filme de ficção ao documentário. Sua extensa obra percorre todas as mudanças que o cinema sofreu nas últimas cinco décadas. Ela não teve receio de experimentar e mais ainda, estava cercada de pessoas que gostava de ter por perto. É notório que ela ama gente, de gente comum, do cara do campo ou do trabalhador que acorda cedo e enfrenta a selva de pedra.

Dito isso, e ao contrário de seus colegas da Novelle Vague como Truffaut e Godard, Agnès não é tão badalada fora do meio cinematográfico, porém é uma figura proeminente do cinema francês e se tornou a primeira diretora a receber um Oscar honorário pelo conjunto da obra este ano. Além disso, seu recente trabalho, o documentário Visages, Villages, que dirigiu o lado do fotógrafo JR, também está indicado ao Oscar, num filme em que nos delicia com seu talento em saber deixar as pessoas à vontade a ponto de que contem suas histórias. 

Visages, Villages é delicioso por não ser didático, erro de muitos documentários. É um diário de viagens que percorre a aventura de Agnès ao lado de JR, pela França. JR é um exímio fotografo que expõe suas obras ao ar livre se tornando célebre por isso. E assim como Agnès ele gosta de gente comum. Sendo assim a sinergia entre eles salta aos olhos. Da garçonete ao homem do campo chegando ao estivador. O humor é outro fator que faz com o que o filme se torne leve, não se torne monótono, os diretores foram inteligentes também em fugir da pieguice como, por exemplo, ao mostrar a avó de JR e os preparativos para o encontro com Godard. A edição e o tempo também contribuíram, em mais ou menos 1 hora e meia é possível compreender a visão de duas pessoas de épocas e hábitos tão distintos, mas que se complementam porque souberam aproveitar o que haviam de melhor em cada uma para realizar este esplêndido filme.

19/02/2018

Projeto Flórida

Para muita gente,  e principalmente muitos brasileiros, a Flórida é a Disney, lugar em que os sonhos se tornam realidade, mas não é bem assim. Não é mesmo.

Moonee (Brooklyn Prince) está de férias da escola e aproveita seus dias no hotel em que mora aprontando com seus amigos para desespero do gerente, Bobby (Willem Dafoe) que tenta colocar alguma ordem no local. Bobby vive às turras com os hospedes especialmente a mãe de Moone, a desbocada Halley (Bria Vinaite).

Projeto Flórida é um filme despretensioso, ele não quer te convencer de nada e apenas mostra a vida como ela é. Portanto enquanto acompanhamos as travessuras de Moonee e suas tentativas de sobreviver junto com sua mãe, vemos passar um retrato da sociedade americana que Hollywood dificilmente mostra. Ou quando tenta mirar nestas questões, quase sempre erra buscando glamorizar o improvável, maquiar para os olhos do grande público as mazelas que afligem milhões de americanos. 

Se de um lado temos a ironia no roteiro (catem a cena em que um casal chega para passar a lua de mel e fica perplexo ao chegar na espelunca em que se passa o filme, a jovem é brasileira e quer sair de lá urgente) do outro lado percebemos situações de grande ternura como o momento em que Halley leva a filha para comer em restaurante chique de um hotel. Impossível não se divertir com a experiência da menina com a comida do local contudo quando a câmera fita Halley é de apertar o coração.

Provavelmente por não gostar de ver os Estados Unidos retratado dessa maneira, os membros da Academia ignoraram o filme na maioria dos prêmios, felizmente Willem Dafoe recebeu uma merecida indicação como melhor ator coadjuvante. E como não amar a pequena Brooklyn Prince que merecia ter sido indicada ao Oscar por seu desempenho acima do normal assim como a estreante Bria Vinaite que nos arrebata. Sua performance é tão sensível que não temos raiva de suas escolhas, é notório que ela apenas quer sobreviver nesse mundo caótico e que os americanos, tentam esconder.

15/02/2018

Com Amor, Van Gogh

Vincent Van Gogh era um artista extremamente sensível e desejava que todos pudessem sentir o que ele via com sua arte, infelizmente apenas após sua morte ele conseguiu alcançar o coração de todos com seu trabalho. A pobre alma atormentada do pintor holandês durante anos aguça a curiosidade de muitas pessoas que tentam entender quem afinal era o homem por trás de tanta beleza. Porque ele se matou? Como alguém que transmitia tanta vida em seus quadros poderia querer tirar a sua própria?

Assim sendo vemos em Com Amor, Van Gogh, os personagens retratados pelo artista recontando os instantes finais de sua vida. Tudo começa quando Armand Roulin é encarregado pelo pai, Joseph Roulin, de entregar uma carta ao irmão de Van Gogh, Theo. Ele não sabe que este também faleceu e cabe aos moradores de Auvers-sur-Oise lhe contarem, sob a perspectiva de cada um, o que aconteceu com Van Gogh no período em que esteve na cidade.

O que me incomoda no filme é que seu roteiro não chega a lugar nenhum, parece que de repente decidiram que seria uma boa ideia criar um suspense sobre a morte do pintor e lá foram eles, contudo quando você acha que o filme vai começar ele se perde novamente virando uma grande perda de tempo e é lamentável. A obra de um dos maiores gênios do mundo daria um filme belíssimo se tivessem escrito uma boa história a partir do que ele deixou, mas pegaram justamente isso para tentar encontrar motivos supérfluos e para se conhecer Van Gogh basta apenas ver seus quadros, está tudo ali. 

Com Amor, Van Gogh está indicado ao Oscar de melhor animação, o filme foi pintado a mão por mais de cem pessoas, neste caso o resultado é lindo e acredito que funciona muito bem numa sala de cinema, mas falta ritmo o que o torna longo demais para se apreciar e talvez se fosse um curta funcionasse melhor.

Trama Frantasma

Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado estilista, o preferido tanto da alta sociedade quanto da nobreza europeia. Ele é um profissional muito exigente, cheio de manias irritantes, mas sedutor o suficiente para sempre ter ao seu lado alguma jovem para servi-lo, ora como musa, ora como amante. Tudo isso até conhecer Alma (Vicky Krieps), uma garçonete que ao contrário das outras moças sabe se impor e tecer uma maneira de prender Reynolds.

Trama Fantasma é um filme surpreendente. Ele não entrega logo sua história e justamente por isso mesmo prende a atenção de tal maneira que não se percebe o tempo passar. O enredo vai se desdobrando como um tecido pronto para ser costurado à medida que conhecemos cada um de seus personagens principais. Reynolds no alto de seu ego super inflado não é tão seguro de si assim, como todos os artistas ele também é inseguro o bastante para temer perder o que construiu; Cyril (Lesley Manvlle), seu braço direito, esquerdo e tudo mais, é muito mais generosa do que se espera dela a princípio; Alma é muito mais esperta do que se imagina sabendo usar sua cara de bobinha pra conseguir o que deseja.

Paul Thomas Anderson é um diretor pelo qual sou apaixonado desde Boogie Nights, ele sabe como escrever personagens humanos, nunca maniqueístas, sabe como posicionar a câmera e brincar com ela quando necessário. A fotografia é outro charme e a trilha sonora um primor, é sobretudo ela que nos leva a acompanhar esse filme cheio de nuances e com um roteiro que nos prega peças, revelando ardis femininos maiores do que Reynolds poderia supor. 

E o elenco inteiro merecia um Oscar, suas atuações são soberbas, mas sobretudo Lesley Manville prova que não é uma zebra entre as indicadas e que merece aquele prêmio tanto quanto às outras, sua personagem é intrigante, suas falas são sempre as melhores do filme roubando a cena em todos os momentos em que aparece. Daniel Day-Lewis, o que dizer? Deem outro Oscar para esse homem que pode até ser o último já que ele anunciou a aposentadoria. Ele consegue ser perfeito sempre em cada filme e aqui não foge à regra. Só mesmo ele é capaz de fazer com que sintamos repulsa e desejo num mesmo momento.

Trama Fantasma está indicado à seis Oscars (filme, direção, figurino, trilha sonora, ator e atriz coadjuvante) e merece todos eles, contudo se vai ganhar eu não sei, talvez não, mas é aquele tipo de filme que consegue ser maior que qualquer prêmio, mas que a gente quer que ganhe assim mesmo.

08/02/2018

Sem Amor

O amor quando surge não tem explicação, a falta dele também e é sobre isso que esse filme russo concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro fala. Zhenya e Boris estão em processo de divórcio, e jogam na cara um do outro todo o tipo de rancor acumulado durante anos, ela mais do que ele que prefere manter uma atitude passiva perante as situações deixando a mulher esbravejar suas insatisfações.

No meio disso tudo existe uma criança, Alyosha, que sofre com o distanciamento dos pais que preferem viver suas vidas do que se preocuparem com o que o garoto sente a respeito disso tudo chegando até a traçarem um triste destino para a pobre criança. Zhenya e Boris já vivem outros relacionamentos e parecem bem felizes com isso até que Alyosha desaparece deflagrando um caos na vida de seus omissos pais.

Sem Amor é um filme que perturba porque mostra que os pais de Alyosha não são vilões, são seres humanos como eu e você e o ser humano pode ser egoísta, mesquinho e capaz de qualquer coisa para viver a sua vida sem se preocupar com os sentimentos dos outros. A cena em que Alyosha chora escondido ao perceber que os pais não querem ficar com ele é de uma dor tão intensa que é capaz de dilacerar o mais bruto coração e não apenas por se tratar de uma criança, mas também por isso. Preparem os lenços e tenham certeza que jamais serão os mesmos depois desse filme. 

07/02/2018

Corpo e Alma

O filme húngaro concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano consegue caminhar na linha tênue que separa o incômodo do fascínio, a delicadeza da brutalidade. Se por um lado vemos um matadouro com vaquinhas sendo estripadas, do outro temos cenas lúdicas, feitas de forma artesanal. É o contraponto que o filme sugere no título e que não podem estar separados.

Mária (Alexandra Borbély) é responsável pelo controle de qualidade do tal matadouro, ela não agrada muito as pessoas porque suas maneiras são um tanto excêntricas. Enquanto isso, Endre (Géza Morcsányi) é o chefe do local que observa o comportamento de Mária. Ambos são pessoas solitárias e devido a uma situação que não cabe discorrer aqui, a polícia é chamada no local para uma investigação e o responsável sugere que uma psicóloga entreviste os funcionários. Eis que tanto Mária quanto Endré descobrem na sessão que partilham do mesmo sonho. 

O que vemos a seguir é como estes dois personagens vão lidar com essa situação. Percebemos o mundo de Mária que não permite o toque. Se em determinado momento o roteiro sugere que o sonho seja o mote central ele mesmo nos prega uma peça para mostrar que é apenas um detalhe nessa história e o que importa é a solidão destes dois personagens e como eles lidam com isso. O sonho seria uma metáfora para suas vidas, dois cervos numa floresta em meio a neve, eles têm apenas um ao outro. Mária e Endre não possuem ninguém, mas agora eles começam a perceber que precisam um do outro.

Mária é uma criança descobrindo o mundo. Alexandra Borbély dá à personagem o tom certo, não deve ter sido nada fácil construir uma mulher com tantas nuances. Seu olhar percorre os mais diversos sentimentos. No começo ela é quase um robô programado para executar ordens, que necessita ensaiar com bonecos de Playmobil o que vai conversar com Endre (neste momento meu coração vibra com uma inserção de Product Placement tão sutil), contudo com o decorrer de sua história vemos como seu olhar se transforma na menina encantada com o gramado e com o jatos de água sobre ela. Já Géza Morcsányi tem a missão de segurar um protagonista linear e nos momentos em que ele não diz uma palavra, diz mais do se estivesse falando.

Corpo e Alma é um desses filmes que perturbam, mas são essenciais em nossa vida porque mostra que a solidão nunca é boa, todos nós precisamos de algo ou alguém que nos conforte em qualquer momento de nossas vidas. É o que o nosso corpo e nossa alma desejam.

06/02/2018

O Destino de uma Nação

Winston Churchill foi um dos maiores estadistas do século XX e sua destreza, estratégia, exímia capacidade de liderança e inteligência fizeram com que o Reino Unido se mantivesse firme durante a 2º Guerra Mundial, enquanto o resto da Europa sucumbia perante os alemães. Churchill chega ao poder justamente no momento em que as tropas inglesas estão encurraladas na França. Sim, enquanto Dunkirk conta como isso aconteceu, O Destino de uma Nação mostra as artimanhas políticas, os bastidores desta guerra e como o primeiro-ministro britânico conseguiu não apenas se manter no poder, mas também unir o povo o suficiente para lutar contra a ameaça nazista.

Os ingleses sabem como ninguém fazer filmes de época e neste caso somos transportados para os anos 40. Para dar vida ao personagem principal, Gary Oldman, está coberto sob pesada maquiagem o tornando irreconhecível. Os diálogos também são ótimos, porém, sempre há um porém, a direção de Joe Wright é fraca, o filme não tem o ritmo que se espera e em vários momentos é cansativo. Além disso alguém deve ter dito para o realizador que seria uma ótima ideia aquele excesso de plongée no filme. Enquanto Dunkirk sabe usar muito bem os ângulos e a fotografia ao seu favor, O Destino de uma Nação peca nestes quesitos técnicos. As sombras até são bem utilizadas em dois momentos do filme, no seu início quando Churchill aparece nas sombras e é revelado ao espectador ao acender um charuto e no fim ao sair do parlamento vemos sua silhueta se formando à medida que o filme termina. Mas com um personagem tão extraordinário, o longa metragem deixa a desejar.

Indicado a seis prêmios da Academia é favorito ao prêmio de melhor ator e maquiagem, um trabalho aliás em que um depende do outro. Oldman carece do suporte da maquiagem, contudo ela esconde o ator. É pesada e não ajuda. De qualquer forma vale a pena pelo teor histórico e como disse Churchill, "Não podes negociar com um tigre quando tens a tua cabeça dentro da boca dele!"

A Voz Suprema do Blues

Viola Davis é uma atriz do mesmo quilate de Meryl Streep. Infelizmente ainda não é tão reconhecida ou tão bem paga quanto (a bem da verdade ...