18/05/2020

Shazam!


A DC Comics, ao contrário de sua rival, Marvel, sempre apresentou personagens politicamente corretos, quer dizer, a exceção sempre foi o Batman, mas ela tinha o Super-Homem e a Mulher-Maravilha como símbolos da retidão que os EUA adoram pregar. Talvez por não se aproximarem tanto do público ela perdeu espaço pra Marvel ao longo dos anos já que esta sempre mostrava super heróis com os mesmos problemas que eu, que você.

Talvez isso justifique o sucesso dos filmes da Marvel no cinema. A DC, com exceção do Batman, não seu deu nada bem com o filme do Lanterna Verde e Homem de Aço é um tanto chato, apesar da beleza magnética de Henry Cavill ser perfeita pro personagem. Tudo isso até a chegada do longa da Mulher-Maravilha que conseguiu romper a chatice que a empresa sempre fez questão de manter. Na TV, as séries do The Flash, Supergirl e Arrow também garantiram um bom público como também a do Superboy exibida bem antes (apesar que durou tempo demais e se perdeu ao longo das dez temporadas).

Toda essa introdução é pra falar de SHAZAM! (2019), super herói que já teve uma série televisiva nos anos 70 e que ganhou uma divertida releitura ano passado. O filme não apenas apresentou um personagem que muito lembra o Super-Homem, mas ele tem humor, coisa que seu colega nem sonha ter. Outra coisa bacana é que o filme tem uma história bem simples, sem ziguezague, servindo apenas pra mostrar a origem do personagem.

Em Shazam!, vemos um garoto, Billy (Asher Angel), se perder da mãe e crescer fugindo de lares adotivos até conhecer um casal que resolve ajudá-lo, eles já tem outros filhos adotivos e Billy é muito bem recebido em sua nova casa, mesmo ele não gostando. Tudo até conhecer um antigo feiticeiro que lhe dá grandes poderes e nessa hora ele se transforma num adulto e é aqui entra em cena Zachary Levi (super gostoso, por sinal) pra dar vida ao nosso herói.

O resto é como um filme de super herói como todos os outros e porque ele fez sucesso chegando a ser considerado pela crítica o melhor filme da DC desde O Cavaleiro das Trevas? Porque o roteiro, elenco e efeitos especiais são muito bons e como eu disse anteriormente, ele não enrola o público como Homem de Aço fez e diz logo a que veio. 

E as marcas explodiram na tela: os feitos de Shazam são gravados por uma Panasonic, ele come Cheetos, bebe Red Bull e joga num XBox One. Como um bom filme comercial podemos ver muitas outras, claro e obviamente, como é de praxe em filmes assim, uma continuação já está sendo planejada, aguardemos que seja tão boa ou melhor que o primeiro filme.

Uma curiosidade: Shazam era conhecido anteriormente como Capitão Marvel e, isso mesmo, temos um Capitão Marvel na Marvel! Nos anos 70, a DC se viu obrigada a publicar a revista do personagem como nome de Shazam até que renomeou oficialmente o Capitão Marvel como Shazam quando relançou em 2011.

15/05/2020

Estranhos em Casa

Lançado em abril deste ano pela Netflix, Estranhos em Casa (Furie, 2019), é um filme francês que bebe da mesma fonte de Corra (Get Out, 2017). Assim como no filme americano, o protagonista é negro, bem sucedido em sua carreira, pacato e sofre preconceito. Ambos também se relacionam com mulheres brancas. E sim, tem bem mais coisa parecida, mas vamos a história.

Um casal e seu filho vai passar férias a bordo de uma motorhome. Eles deixam tomando conta da casa durante esse período a babá do filho e seu marido, porém quando retornam das férias, o casal não quer sair. Pra piorar tudo, existe uma leia na França que protege os novos morados já que eles estão pagando as contas de luz, água e gás. Lógico que eles não aceitam isso e a coisa vai parar na justiça e o que parecia ser bem fácil de resolver vai se complicando. Ainda mais depois que eles se veem obrigados a passarem um tempo num camping. 

Estranhos em Casa começa como um drama familiar e vai se revelando um filme de terror destes repletos de carnificina. A violência não é gratuita. Existe dentro de Paul Diallo (Adama Niane, numa interpretação arrasadora) uma violência que ele não imaginava que poderia ter. Ele é apenas um professor de história que está passando dificuldades em seu casamento, mas que não quer se meter em briga nenhuma. Quando assiste dois alunos brigando na escola ele não faz nada. O tempo todo ele é posto à prova por agir de maneira pacífica. Algo que para Mickey (Paul Hamy) é covardia. Para ele a inércia de Paul o está deixando manso, domesticado e ele é um ser selvagem que precisa pôr pra fora isso.

Nesse caminho não fica claro porque o casal de inquilinos que ocupam a casa e do nada resolvem não querer sair mais. A moça estava grávida e me pareceu que como eles não tinham para onde ir ter o bebê que ficariam por ali mesmo, mas tanto Paul quanto sua esposa Chloé (Stéphane Caillard)são pessoas bacanas, contudo esse detalhe não importa para a historia e sim o terror psicológico que permeia grande parte do filme e que nos conduz a jornada de um homem comum que do nada pode perder seu chão. A casa representa o que ele tem de seguro no mundo, a esposa que um dia o traiu e cujo assunto ainda não foi bem resolvido na cabeça dele, o filho que ele mal se relaciona, os amigos que parecem ser mais amigos da esposa do que dele mesmo. 

Estranhos em Casa está disponível na Netflix, é violento mas não achei tão violento como dizem se a gente levar em consideração outros filmes do gênero. Ele prende a atenção e mostra que o verdadeiro terror está dentro de nós mesmos, um grande clichê, claro, mas a pura verdade.

02/03/2018

A Grande Jogada

Ok, vamos lá. É um grande filme? Não, é um filme mediano que vale a pena assistir no conforto de casa na Netflix quando for lançado. Mesmo assim cravou uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado porque seu roteirista é hype. Acompanhamos aqui a trajetória de Molly Brown que de estrela do esqui freestyle se transforma na princesa do poker, ganhando milhões de dólares com um negócio escuso investigado pelo FBI.

A Grande Jogada é o primeiro filme dirigido por Aaron Sorkin, o mesmo escritor de Questão de Honra, A Rede Social, O Homem que Mudou o Jogo e Steve Jobs. Como roteirista ele continua profícuo, como realizador fez bem o dever de casa. O longa é  cheio de diálogos interessantes e narrado o tempo todo na primeira pessoa, porém o que faz andar mesmo é a edição, de resto fica tudo nas mãos de Jessica Chastain que empresta sua beleza, charme e talento para viver uma mulher ambígua. Afinal, o que leva alguém que tinha tudo pra fazer uma carreira brilhante como esquiadora ou advogada entrar num negócio fraudulento desses?

O grande problema é que se você vai ver o filme esperando por respostas ele não responde nada, assim como Molly Brown que se recusa a responder as perguntas que poderiam salvá-la da cadeia. Contudo se busca apenas entretenimento ele pode funcionar, claro que em certos momentos precisa-se tomar cuidado já que o ritmo é rápido em determinadas cenas, mas mesmo que você perca o fio da meada não precisa se preocupar porque as regras do poker não impedem que se entenda que tudo ali é feito na base do blefe.

26/02/2018

Roman J. Israel, Esq.

Roman é um excelente advogado, seu grande defeito é ser honesto num meio que não prioriza tais valores. Ele está mais preocupado em defender seus clientes do jogo sujo que existe nos bastidores da lei. Tudo parecia ir bem pra ele até que seu sócio morre o deixando numa situação complicada ao ponto de  se ver obrigado a trabalhar com o quê e com quem não gostaria .

Roman J. Israel, Esq. é um filme estrelado e produzido por Denzel Washington que lhe deu mais uma indicação ao Oscar de melhor ator.  O grande problema é que ele aparece em praticamente todas as cenas e esse narcisismo poderia ter sido evitado, acredito que talvez se ele tivesse apenas produzido o filme e colocado outro ator, quem sabe o filme pudesse ir mais longe. Não que o filme seja ruim, eu diria que é mediano, mas acontece que ao invés de priorizar o roteiro que tem uma premissa bem interessante, esse egocentrismo de Denzel faz o filme se perder em vários momentos e deixar uma pergunta incômoda: afinal, Roman luta pelo quê mesmo? 

A luta incansável de Roman pelos oprimidos, que deveria ser o tema central do filme, deixa de existir, a dor das pessoas que ele tanto quer defender nem é enfatizada, é deixada de lado porque o que importa no filme é exibir o já conhecido talento de Denzel Wanshington. Pelo visto deu certo, os membros da Academia compraram a ideia, contudo o ator chegou num patamar que não precisa de nada disso. Em Trama Fantasma, por exemplo, Daniel Day-Lewis brilha porque sabe deixar os outros brilharem ao seu redor, infelizmente não podemos dizer o mesmo de Denzel porque sua vaidade atrapalha o andamento da história. Em certo ponto é legal ver a transformação do personagem, ela é bem feita, ele está agora sentando na mesa grande e participando de um jogo que nunca quis fazer parte e um diretor mais habilidoso poderia ter extraído cenas mais interessantes desse momento. A cena em que ele vai à praia talvez seja uma das melhores do filme. Outro desperdício é Colin Farrel num personagem que não tem sentido algum.

E para não dizer que não falo mais de marcas por aqui existe um caso interessante de Product Placement em que a Bic aparece. E outra coisa bacana é a trilha sonora com clássicos da black music americana, um ponto a favor de um filme que quase cumpre seu papel. Quase. Só ficou um pouco longe disso.

23/02/2018

The Square

"O quadrado é uma zona franca onde impera confiança e cuidado. Em seu limite, todos têm os mesmos direitos e deveres."
Assim como eu disse na resenha de The Post, esqueçam o subtítulo em português, The Square (o quadrado) é muito mais que a arte da discórdia. O filme sueco indicado ao Oscar deste ano é um soco no estômago, assim como seus concorrentes ele não poupa o dedo na ferida e vai até as ultimas consequências. Ao retratar vários temas difíceis, talvez o ponto principal seja essa inércia em que estamos vivendo atualmente em que olhar para os mais fragilizados que estão ao nosso redor não nos causa mais nenhum tipo de compaixão. A não ser que somos levados a isto.

Christian é o curador de um museu de arte moderna e um dia tem seus pertences roubados, ao invés de chamar a polícia ele mesmo rastreia o celular com a ajuda de um funcionário do museu e os dois decidem colocar em cada apartamento do prédio em que o celular está escondido, uma carta ameaçando o tal ladrão. O tal gesto dá certo e devolvem seus pertences, mas a partir daí vários contratempos surgem na vida de Christian.

É impressionante como a narrativa é forte, mas a direção não é pesada ao contrário de Três Anúncios para um Crime. Por sinal, os filmes desta categoria dão um banho, uma verdadeira aula de cinema que os americanos deveriam começar a aprender. O diretor Rubens Östlund sabe como conduzir as cenas de tal forma que os momentos mais densos são cobertos de poesia. A versão de "Ave Maria" de Gounod feita por Yo-Yo Ma & Bobby McFerrin pontua toda a história ajudando a criar esse clima mais leve, talvez a ideia seja uma grande ironia do diretor, entretanto, funciona muito bem.

Claro que nada disso seria perfeito se não houvesse um elenco a altura e é aqui entra o nome de Claes Bang, esse ator dinamarquês carrega todo o filme sem cair na pieguice nem na caricatura, sua composição é impressionante e se de fato o Oscar fosse justo ele teria no mínimo recebido uma indicação. Sua performance é um verdadeiro show que nos faz perguntar: quem é Gary Oldman?

21/02/2018

Doentes de Amor

Os membros da Academia este ano cometeram vários erros, um deles foi menosprezar filmes interessantíssimos como este. Doentes de Amor foi indicado apenas para melhor roteiro original (por sinal merece e muito esse Oscar) e nada mais. Uma pena. O filme é superior a vários que concorrem em muitas estatuetas.

Fugindo do clichê de comédia romântica, o filme mostra um paquistanês (Kumail Nanjiani, que por sinal escreveu o roteiro baseado em sua vida) que tenta a sorte como comediante de stand up. Em um destes shows conhece uma jovem e iniciam um relacionamento. O problema é que sua família é muito tradicional e espera que ele se forme como advogado e cumpra todos os deveres de um muçulmano, como orar várias vezes ao dia e casar com uma moça que eles arranjarem. Só que ele não quer nada disso e vive fugindo de tudo isso, sem que obviamente eles saibam. 

Partindo de uma premissa comum o que faz Doentes de Amor ter um roteiro original é que ela é pautada mais nas tragédias que cercam seu protagonista do que na comédia em si. Ele acaba partindo o coração da namorada em esconder certas coisas de sua vida. Quando a jovem vai parar no hospital,  ele cuida dela durante o tempo em que está em coma e se aproxima dos pais da moça. É justamente o pai dela que tenta dizer pra ele que quando a gente sente que vai perder a pessoa que ama é que descobre que ela é o amor de sua vida. Ok, na verdade ele não disse dessa maneira, mas quis dizer isso. O que quero dizer é que o diálogo em si é divertido como são todos os diálogos do filme.

Num ano marcado pela forma nojentinha como a mídia fez colocar filmes medíocres entre os melhores do ano é lamentável que a festa do Oscar não tenha mais o brilho de outrora, não que isso não ocorresse antes, mas agora está tudo tão descarado que salta aos olhos de tal forma que até quem ainda acreditava na credibilidade do Oscar já não acredita tanto. O que levou os membros da Academia a cometerem tantos erros esse ano eu não sei, vai ver cometiam antes e a gente que era bobo.

20/02/2018

Visages, Villages

Em sua extensa carreira como diretora, Agnès Varda foi do filme de ficção ao documentário. Sua extensa obra percorre todas as mudanças que o cinema sofreu nas últimas cinco décadas. Ela não teve receio de experimentar e mais ainda, estava cercada de pessoas que gostava de ter por perto. É notório que ela ama gente, de gente comum, do cara do campo ou do trabalhador que acorda cedo e enfrenta a selva de pedra.

Dito isso, e ao contrário de seus colegas da Novelle Vague como Truffaut e Godard, Agnès não é tão badalada fora do meio cinematográfico, porém é uma figura proeminente do cinema francês e se tornou a primeira diretora a receber um Oscar honorário pelo conjunto da obra este ano. Além disso, seu recente trabalho, o documentário Visages, Villages, que dirigiu o lado do fotógrafo JR, também está indicado ao Oscar, num filme em que nos delicia com seu talento em saber deixar as pessoas à vontade a ponto de que contem suas histórias. 

Visages, Villages é delicioso por não ser didático, erro de muitos documentários. É um diário de viagens que percorre a aventura de Agnès ao lado de JR, pela França. JR é um exímio fotografo que expõe suas obras ao ar livre se tornando célebre por isso. E assim como Agnès ele gosta de gente comum. Sendo assim a sinergia entre eles salta aos olhos. Da garçonete ao homem do campo chegando ao estivador. O humor é outro fator que faz com o que o filme se torne leve, não se torne monótono, os diretores foram inteligentes também em fugir da pieguice como, por exemplo, ao mostrar a avó de JR e os preparativos para o encontro com Godard. A edição e o tempo também contribuíram, em mais ou menos 1 hora e meia é possível compreender a visão de duas pessoas de épocas e hábitos tão distintos, mas que se complementam porque souberam aproveitar o que haviam de melhor em cada uma para realizar este esplêndido filme.

A Voz Suprema do Blues

Viola Davis é uma atriz do mesmo quilate de Meryl Streep. Infelizmente ainda não é tão reconhecida ou tão bem paga quanto (a bem da verdade ...